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Ser criativo faz bem ao cérebro mas somos cada vez menos estimulados nesse sentido

O conceito tem vindo a perder-se no quotidiano e também no seio das organizações. Estamos a ficar mais padronizados e também mais autômatos. Descubra as cinco mudanças que os especialistas propõem para uma vida mais original e colorida.

©DIVULGAÇÃO
80% das pessoas sente-se pressionada para ser produtiva e desincentivada a ser criativa no local de trabalho, segundo um estudo que a empresa multinacional fabricante de software informático Adobe apresentou há uns anos e que, nos dias de hoje, ainda não perdeu a atualidade. Na vida real, se pensar nisso, não difere muito. Passa mais tempo a procurar solucionar problemas e resolver assuntos do dia a dia do que a desenvolver atividades criativas.

Uma realidade que Anita Silva, diretora-executiva da empresa de consultoria criativa Team Mais e co-fundadora da Clown Care, uma associação que leva a arte do palhaço a lares de idosos, procura combater, como afirmou em entrevista à edição impressa da revista Prevenir. "A primeira coisa que faço quando quero ser criativa é deixar a gestão em banho-maria", revelou, então, a especialista e empreendedora, habituada a lidar com o problema.

"Isto faz com que o consciente deixe de estar tão ativo a procurar uma solução lógica e o inconsciente possa começar a intervir, como acontece nos sonhos ou quando passamos à frente da resposta mais difícil no teste e voltamos a ela mais tarde, já com outros estímulos na cabeça. Quando volto à questão, surgem invariavelmente novas ideias. Depois, crio momentos de pensamento divergente. Juntar universos distintos é um exercício que ajuda", refere.

"Se estou a criar uma formação de criatividade, posso pensar como é que juntaria o mundo do balé a esta ideia ou outra coisa que venha de um mundo diferente. Isso ajuda a desformatar o cérebro", assegura Anita Silva, que desvenda ainda outro dos métodos a que recorre. "Também uso mapas mentais ou esquemas em papel para visualizar ideias", confidencia a gestora. "Tenho um elemento no centro e vou juntando outros em volta", afirma.

"Isso ajuda-me a ter uma visão global e a combinar elementos de formas inesperadas", acrescenta ainda Anita Silva. Esta é apenas uma forma de a fazer, a dela. No dia a dia, são muitas as (outras) estratégias a que pode recorrer para se libertar das amarras que formatam o cérebro. Estes são os cinco conselhos que os especialistas que contactamos deixam para reforçar a criatividade, uma ação que estimula e melhora a atividade cerebral, no seu quotidiano.

1. Desligue a autocensura

Essa é a primeira amarra a largar. "Faço um exercício matinal que se chama morning pages [páginas matinais em inglês]. Consiste em fazer escrita automática, sem censura, logo de manhã, ainda meio a dormir. No início custa, podem só sair coisas como não me ocorre nada ou está sol. Mas, se continuarmos, começam a surgir coisas interessantes e é uma prática que ajuda a desligar o modo lógico e a autocensura", assegura mesmo Anita Silva.

2. Recorra a jogos

Não se limite ao exercício de escrita matinal anterior. "Eu recorro a jogos de encaixar peças enquanto escrevo", confessa Margarida Fonseca Santos, escritora que dá cursos de escrita criativa e formação a professores. "Há um truque que uso quase todos os dias. Ligo um jogo simples de encaixar peças por cima do documento em que estou a trabalhar. Ao jogar desta forma, o cérebro descontrai e esse é o segredo para sermos bem-sucedidos", garante.

"Descontrai e começa a associar livremente ideias, frases... Quando sinto que estou nesse ponto, desligo o jogo e escrevo. Muitas vezes, as ideias surgem-me por associação. Isto acontece no meio de tarefas como lavar loiça, arrumar, guiar ou meditar. Mais tarde, de forma umas vezes rudimentar e de outras elaborada, faço um esquema com um lápis. Só depois escrevo. Posteriormente, começa o verdadeiro trabalho, que é rever, modificar, voltar atrás e por aí fora...", refere.

3. Arranje um hobby

Demasiado tempo a fazer as mesmas coisas, muitas delas rotinas há muito enraizadas, tolda o pensamento e limita a ação criativa. "Os hobbies são estimulantes e, como o cérebro tende a generalizar, tanto as boas como as más práticas, dão-nos maior capacidade de ser mais criativos, seja na nossa profissão ou na forma como aproveitamos a reforma", refere Margarida Fonseca Santos, que defende a adoção de um hobby para diversificar os interesses.

4. Passeie e visite espaços museológicos e culturais

Demasiado tempo em casa limita horizontes. "Eu inspiro-me tanto em museus como no YouTube", revela Pedro Tochas. O comediante, especialista em stand up comedy, faz também palestras motivacionais em empresas. Quando o elogiam, referindo que tudo o que ele diz e faz em cima do palco tem piada, ele reage de imediato. "Eu respondo que aquilo é o que as pessoas veem depois de eu andar semanas a trabalhar naquilo", conta o humorista.

"Há que escavar muito, ter muitas ideias, até aparecer uma pepita", sublinha. "Uma das coisas que mais me estimula é ver museus de arte contemporânea, também viajo muito e vejo muitos espetáculos mas até a navegar no YouTube temos informação estimulante", refere. "Começa-se por um vídeo que nos mandaram e acaba-se a ver algo sobre a reprodução de pandas", desabafa. "O mundo está cheio de coisas incríveis», considera mesmo Pedro Tochas, que desvenda um segredo. "Quando tenho um espetáculo para preparar, passo algum tempo a recolher material", prossegue.

"Se há algo me chama a atenção durante o jogging, anoto no telefone. Depois, decido um tema e vou pensando naquilo durante semanas, tendo ideias sem me preocupar se são boas. Fazer a primeira versão é o que requer mais coragem. O escritor Ernest Hemingway dizia que o primeiro rascunho é, quase sempre, uma porcaria. Não podemos ter medo. Eu apresento as ideias mesmo inacabadas para ter feedback e vou melhorando a partir daí», esclarece.

5. Exerça a capacidade de deslumbramento

Liberte-se das ideias pré-concebidas e olhe (mais) em seu redor. "O mundo é como um museu de arte contemporânea, tem coisas que não lembram ao diabo. Para criar, eu tenho de estar permanentemente aberto, como uma esponja, a absorver estímulos de fora. Isto ocorre 24 horas por dia. É uma forma de estar curiosa e atenta. Como comediante, o meu material é o mundo e o combustível das ideias é a vida", acrescenta ainda o humorista Pedro Tochas.

Texto: Bárbara Bettencourt e Luis Batista Gonçalves com Vítor Rodrigues (psicólogo e psicoterapeuta), Anita Silva (clown care e CEO da Team Mais), Margarida Fonseca Santos (escritora) e Pedro Tochas (comediante)
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